cenas maringaenses
Subo a Avenida Laguna. Os vidros fechados do carro me separam do calor ensurdecedor que faz lá fora. Na calçada em frente ao Bar do Nicola, há três mesas e seis cadeiras de plástico, cinco das quais estão ocupadas por senhores de bermuda e chinelos, aposentados que conquistaram, após muitos anos de labuta, o sagrado direito de beber uma cerveja àquela hora da manhã. Cada um na sua, trocando uma palavra de vez em quando, os cinco prestam atenção na mesma coisa: o galo, que perambula por ali, ciscando em frente ao boteco.
É o maior que eu já vi. Tem uma enorme crista vermelha, que não pende pra lado nenhum, um moicano de sabão de pedra. As penas são cor de marfim e cinza escuro. Ele me percebe espiando e me olha de volta. O peito estufado, a cabeça erguida, a autoridade de quem sabe que é o assunto predileto do lugar. Um galo de briga, mesmo que não brigue.
Sinto inveja dos velhos. Queria estar entre eles, na cadeira que resta, acompanhando a patrulha caótica do galo. E não aqui, fritando as mãos no volante.
***
No cruzamento da Avenida Tuiuti com a Mauá, perto do terminal rodoviário, tem sempre alguém pedindo esmola – ou vendendo paçocas, a esmola dos nossos tempos, uma atividade mais adequada ao tal do espírito empreendedor, algo que se espera que tenhamos, que todos nós tenhamos, até aqueles que não têm mais nada.
Aumento o volume da rádio. O locutor me manda comer peixe, peixe é saúde. Quando já espero a visita do vendedor de paçocas, quem me aparece é um outro personagem. Num monte de areia úmida que tava por ali, de bobeira, esperando a prefeitura decidir se termina ou não a obra da ciclovia, nosso Tonho da Rua aproveitou o material e fez não uma mulher de areia, mas um simpático cavalo. Quando o sinal fecha e os carros vão se enfileirando, ele finge que ajeita um detalhezinho de nada na crina do animal, já bastante elaborada, depois se afasta e admira satisfeito a escultura. Em seguida tira o boné e, compenetrado, percorre de braço esticado o corredor entre os carros.
***
Já perto de casa, na frente de um posto de combustíveis, percebo uma freira caminhando. Vai despreocupada, balançando os braços. É bastante jovem, e o seu hábito, composto por túnica e véu, é de uma cor estranha, ocre. Talvez seja só uma fantasia de carnaval, uma freira de festa junina. Quando eu era criança, existia uma falsa freira que de vez em quando invadia a missa na Catedral Metropolitana Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Ajoelhava bem na frente do sacrário e ficava lá, alheia à ritualística católica, fazendo gestos incomuns e buscando a salvação por seus próprios meios. Atrapalhava o padre quando ele ia buscar a hóstia consagrada. Ninguém sabia quem ela era, o que tinha lhe acontecido. “É só uma velha louca”, dizia minha mãe, depois fazia o sinal da cruz.
A falsa freira da minha infância também caminhava pela cidade, num passinho contrito, diminuto, que dava a impressão de não ir a lugar algum. Diziam que ela morava muito longe. Talvez fosse até aqui perto de casa. E todos os dias, debaixo de sol quente ou de chuva, ela atravessava a cidade inteira pra rezar, ajoelhada aos pés do Santíssimo, uma oração clandestina que só ela entendia.



gostei muito! obrigada <3
o galo, o tonho, a freira — tudo meio fora de lugar, ou talvez exatamente onde devia estar.
fiquei com a inveja dos velhos e com essa oração que só ela entende.
o resto o texto deixa em aberto, e acho que é isso que fica.